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Editorial

Toma lá dá cá: Até quando isto vai durar?

Ao longo da história da nossa República temos assistido a inúmeros episódios de apropriação do bem público em benefício de interesses privados e escusos. Essa prática está tão disseminada nas várias esferas do poder público e também privado e se verifica com tanta freqüência, que chega a ser considerada inerente ao processo de embate e acomodação de forças políticas no sistema que vivemos. Em outras palavras, a vergonhosa barganha dos espaços de poder e bens públicos é apresentada como um instrumento legítimo na política: nos dizem para aceitar tudo isso como algo natural.

 

Alguém poderia argumentar que essas “negociações”, apesar de despudoradas, se justificariam pelo que pretendem como finalidade. Mas ao nos perguntarmos qual a finalidade da rifa dos cargos em empresas públicas, verificamos com maior desconforto que não somente os meios como também os fins não são nada nobres. Os governos têm utilizado, como justificativa para essas práticas, a necessidade de “garantirem a governabilidade”- por isso o atendimento dos interesses dos diversos partidos. Já os agraciados e suas agremiações partidárias passam a ter a sua disposição o aparelho do estado para fins eleitorais. Traduzindo: a distribuição de cargos tem se constituído em moeda de troca buscando a permanência ou a chegada no governo/poder, sem levar em consideração os interesses maiores da sociedade. E em período eleitoral essas práticas se tornam mais evidentes e escrachadas.

 

E o interesse público?

O papel principal de uma empresa estatal/pública é atender as necessidades do país e do povo, dos cidadãos, daqueles que a mantém. No caso das empresas de energia elétrica, que é um bem público essencial para a população, o compromisso dos gestores é ainda maior – estas empresas tem que ser administradas com transparência e responsabilidade, cumprindo seu papel estratégico no desenvolvimento da nação e no atendimento às necessidades da população e sendo preservadas como patrimônio da sociedade.

 

Aos sindicatos cabe a vigilância permanente, a cobrança efetiva, a denúncia e medidas práticas para exigir que essas entidades, especialmente de interesse público, cumpram com o seu papel – uma vez que pertencem ao povo. Não basta se acomodar nos interesses corporativos: o papel do sindicato e dos trabalhadores das empresas públicas/estatais vai além das catracas e dos portões – temos um compromisso maior com a prestação do serviço público.

 

Com essa concepção e cumprindo com seu papel, os sindicatos integrantes da Intercel e da Intersul (Intersindicais dos Eletricitários de Santa Catarina e da Região Sul, respectivamente) vem ao longo dos anos se posicionando contrários à ingerência política partidária, por considerá-la nociva às empresas, aos trabalhadores e à sociedade em geral. Neste sentido, como já foi expresso várias vezes neste semanário e através de outros meios, essas entidades sindicais rechaçam qualquer indicação para ocupação de cargos nessas empresas (no caso específico, Celesc e Eletrosul) que tenha como principal objetivo o atendimento de interesses desse ou daquele partido, de governos, de grupos e/ou de caráter pessoal. Rechaçam também a ocupação de cargos por pessoas que, enquanto gestores públicos, atentaram contra os interesses dos trabalhadores e da sociedade em geral.

 

Não estamos aqui desconsiderando a função e importância dos partidos políticos, o que chamamos a atenção e repudiamos é que – infelizmente – na maioria dos partidos tem prevalecido a lógica do “toma lá dá cá”, qual seja, o interesse privado sobrepondo o interesse público (dos trabalhadores, do povo e da nação).

 

Continuemos atentos, porque a eleição que se avizinha é momento oportuno para a ampliação dessa prática (toma lá dá cá), que deve ser combatida por todos e em especial pelos trabalhadores eletricitários e suas entidades de classe quando essas práticas ocorrem nas empresas onde trabalham. E, todos sabemos, não é de hoje que isto vem acontecendo na Celesc e Eletrosul.

 

Mas como adverte o poeta e dramaturgo Bertolt Brecht: “… nada deve parecer natural / nada deve parecer impossível de mudar”.


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