Linha Viva 993

Seminário Internacional dos Atingidos

LV 16/07/2009

Estão participando da terceira etapa do curso “Energia e Sociedade no Capitalismo Contemporâneo”, que acontece na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), os diretores do Sinergia Gilberto Agenor de Souza, Rinaldo Irineu de Souza e Sigval Schaitel. Nos dias 11 e 12, antecedendo o curso, participaram também do Seminário Internacional dos Atingidos. Estavam presentes 120 militantes e pesquisadores, representantes de 46 entidades do Brasil e de outros países da América Latina. O evento foi organizado pelo MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens), UFRJ, Fase (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional) e Fundação Heinrich Böll.

O objetivo do seminário é reunir os atingidos dos vários setores da sociedade que são vítimas dos grandes projetos na área de energia, mineração, agronegócio, desastres ambientais, entre outros, para trocar experiências e traçar estratégias de ação frente à atual conjuntura.
O evento foi aberto pela palestra do professor Carlos Vainer, da UFRJ, que destacou a centralização financeira como uma das principais características do sistema capitalista. Através desse processo, vários capitais se juntam para realizar grandes projetos em diversas partes do mundo, causando impactos ambientais e sociais de grandes proporções. A compra das empresas estatais altamente lucrativas é também uma forma de centralização. Um exemplo disso foi o triste episódio das privatizações no setor elétrico brasileiro, que passou para grandes grupos internacionais. Só a Tractebel, que arrebatou o parque gerador da Eletrosul há 10 anos, teve um lucro líquido de mais de R$ 1 b ilhão, no ano passado, transferido na sua maioria ao exterior, onde estão seus principais acionistas, o grupo franco-belga Suez, que atua ao redor do mundo controlando as águas e lucrando com o que deveria ser um serviço público, essencial a todas as pessoas.
Quem opera a centralização financeira do capital são os grandes bancos, instituições fundamentais neste sistema que privilegia operações de grande volume de recursos, como por exemplo, na construção das usinas hidroelétricas. Essas indústrias, na sua construção, exigem grande quantidade de materiais, equipamentos, trabalhadores e uma relação com várias empresas, que estão ávidas por vender seus produtos e serviços. As grandes obras, no Brasil, vão surgindo já nos anos 50, e se intensificam no período da ditadura militar (construção de Brasília, de usinas etc). Todas estas obras foram realizadas pelo Estado, com toda estrutura, pagas com dinheiro público, dinheiro dos trabalhadores. E depois de anos de trabalho e recursos públicos, o estado promove o processo de privatização no país, expropriando os bens materiais, o território e os  próprios rios, que passam de bem público para fonte de lucro para grandes grupos privados nacionais e internacionais. Este processo de entrega dos bens e serviços públicos iniciou já no governo Collor, foi implementado em grande monta no período FHC e continua se aprofundando no governo atual, com o presidente Lula.
O professor finaliza apontando que o poder capitalista no Brasil se dá por um tripé constituído pelo capital financeiro, o agronegócio e a mineração/siderurgia. Os recursos naturais, humanos e tecnológicos são manipulados por estes grupos, que utilizam os políticos e o estado para legitimar seus projetos de exploração e acumulação. Ao contrário do que se tenta fazer acreditar, o interesse primeiro não é o bem estar e desenvolvimento das pessoas, mas o controle das fontes de lucro fácil (como territórios ricos em minérios e, na Amazônia, os rios) e o grande negócio que representa tudo que envolve a construção destas obras.
A outra palestrante foi Claudia Korol, da Argentina, que afirma que o sistema capitalista não considera o cidadão, seus direitos básicos para viver. Lembra que a história da América Latina é marcada pelo massacre dos povos, exploração das pessoas e pelo saqueio das riquezas, sempre com a justificativa do “desenvolvimento” e da “civilização”. A natureza é cruelmente destruída, com o envenenamento de regiões inteiras, promovendo a destruição e a escassez. Trouxe os exemplos recentes do massacre a indígenas no Peru e do golpe militar em Honduras, que revelam formas de como os interesses capitalistas agem para manter e aprofundar as formas de exploração.
Após as palestras, os representantes de cada grupo deram depoimentos sobre a situação atual e, também, sobre a organização da luta na conquista dos seus direitos. Estavam presentes os trabalhadores atingidos por diversos setores, como: barragens, empresas mineradoras, extração de petróleo, gás, transposição do rio São Francisco, pescadores do rio Madeira, usina nuclear de Angra dos Reis, quilombolas do Vale do Ribeira, além dos atingidos pelas catástrofes em Santa Catarina. O relato dos atingidos pela catástrofe revelou que até hoje a maioria das famílias em Blumenau e Ilhota ainda está em situação precária, vivendo em alojamentos. Denunciaram, também, a falta de ação das prefeituras e o sumiço das doações de mantimentos, entre outras irregularidades.
Várias propostas surgiram no seminário. Entre elas, a realização de seminários regionais para reunir os atingidos das regiões, com o objetivo de articular os movimentos locais, de forma a fortalecer a luta pelos direitos de todos, bem como para aprofundar os debates.


Notícias Relacionadas

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Comente

Parceiros