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Nova Ebras deve ser boa para todos

Com semblantes confiantes, olhares empreendedores e ternos e gravatas muito bem alinhados, economistas, estrategistas e outros jovens profissionais da Eletrobrás apresentaram à Federação Nacional dos Urbanitários (FNU), em 17/12/2009, o plano de transformação da nova Eletrobrás. Foram várias apresentações, desde a econômica – mostrando a valorização das ações-, até  sobre a identidade visual, com o reposicionamento da marca Eletrobrás. Contudo, a tônica de todas as apresentações foi o aumento dos lucros para os acionistas. Como se não houvesse uma crise internacional, onde os governos aportam trilhões de dólares em bancos e instituições financeiras, os políticos e economistas da Eletrobrás continuam com o discurso esquizofrênico de que é necessário dar lucro para os acionistas a fim de garantir a sustentabilidade do negócio.

Energia elétrica é um setor estratégico para o país. Sempre será amparado pelo governo em casos de crise, sendo público ou privado. Um exemplo disto foi o apagão de 2001 quando a população teve que indenizar as empresas de energia elétrica pela energia que não foi consumida devido ao racionamento. Ou seja, se der lucro é dos acionistas, se der prejuízo quem paga é a população.

Além dos gráficos que mostram um incremento agressivo no valor das ações da Eletrobrás – tão agressivo que deixa o expectador em dúvida se este crescimento é sustentável ou apenas uma bolha – também foi exibido um mapa com prospecções e planos de empreendimentos ao redor do mundo, desde empreendimentos já em fase de consolidação, até prospecção de usinas no Nepal, passando pela entrada no mercado estadunidense, na área de transmissão. Enfim, não apenas um encantamento para os megalomaníacos de plantão, mas um cenário que inspira e deixa orgulhoso qualquer brasileiro. Cenário este cheio de objetivos e estratégias para realização das metas.

A apresentação mais destoante, tanto no que diz respeito à grandiosidade como na clareza e concretude de ações, foi a que tratava do plano para os funcionários que efetivamente trabalharão para realizar os planos de expansão internacional da Eletrobrás. Digno de um sonoro “só isso”. Apenas enumeraram as ações e benefícios que contemplarão os trabalhadores que irão empenhar os melhores anos de sua vida produtiva nesta cruzada da energia elétrica a qual se propõe a Eletrobrás.

É preciso questionar o que parece ter se tornado um dogma: o lucro para os acionistas. Como se o lucro não fosse tudo aquilo que o trabalhador produz e não recebe, como se também o lucro não fosse o motor do “produzir mais com menos” – menos recursos, menos trabalhadores, menos direitos trabalhistas, menos salários etc. Contudo, além do lucro proveniente do labor, os trabalhadores ainda ajudarão involuntariamente a financiar os empreendimentos da nova Eletrobrás através dos financiamentos do BNDES e por conseguinte do Fundo de Amparo ao Trabalhador. Não esquecer que nestes negócios a Eletrobrás sempre será minoritária (com no máximo 49% das ações).

Mas o elemento sempre oculto nas apresentações de empreendimentos de energia elétrica pode ser facilmente exposto na pergunta proposta pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB): “Energia elétrica para quê e para quem?”. Não é preciso ser um especialista no setor elétrico para saber que não será o consumo doméstico o responsável pelas grandes demandas de energia elétrica, mas sim grandes indústrias como a Vale, Votorantim, Alcoa, entre outras. Indústrias que tem por modelo de sustentabilidade a praga de gafanhotos, ou seja, explorar ao máximo todos os recursos de um determinado local e quando estes estiverem exauridos, migrar para outro local.

É fato que qualquer um se alegra diante da perspectiva de ter chegado “a vez do Brasil” e que possamos ter empresas fortes, multinacionais e globalizadas. Contudo, precisamos pensar o que faremos na “nossa vez”, pois certamente assumir o modelo estadunidense de consumo (que devora dois terços dos recursos do planeta) fará com que a “nossa vez” não passe da próxima década pelo simples fato de que o planeta não suportará (como já não está suportando) tal modelo de produção e consumo.

Ainda é importante que cada trabalhador tenha em mente o seu papel neste processo todo, pois em meio a planos internacionais, conjunturas globais e devaneios gerenciais, ainda é o trabalhador que opera a subestação, que liga a linha de transmissão, que implanta os projetos de engenharia. Portanto, antes de acreditar no PCR, antes de correr para cumprir as metas da empresa, reúna-se com seus colegas de equipe e faça três perguntas básicas:

É bom para nós (o que ganhamos
com isso)?
É bom para a sociedade?
É bom para o meio ambiente?”

Os trabalhadores são sujeitos de sua própria história, não são platéia. Temos todos a responsabilidade, enquanto cidadãos conscientes, de refletir sobre o que está acontecendo e participar de forma ativa e crítica dos debates sobre as transformações que são propostas. O sindicato é o espaço de organização dos trabalhadores, através do qual podemos alterar o rumo do que pode parecer pré-determinado.


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