LV 1047 – 19/08/10 Empresas públicas que atuam como privadas, terceirização, precarização do trabalho e descaso com a morte de trabalhadores, energia como um insumo que tem que dar lucros. Esta é a visão dos gestores de pelo menos três distribuidoras brasileiras (Cemig, Copel e Celesc). Diante disso cabe aos trabalhadores destas empresas a grande responsabilidade de trocar este tipo de gestão por outra que opere com controle social, que vise atender às demandas do cidadão em primeiro lugar. Esta foi a conclusão do seminário “Uma outra Cemig é possível”, promovido pelo Sindieletro, no final de semana passado (14 e 15 de agosto) em Belo Horizonte.
“A gente tem que ´descontaminar´ os salários de coisas como anuênio, PLR”. A opinião é de Marcelo Hugo, superintendente de serviços de distribuição da Cemig, convidado para a mesa redonda “O modelo de gestão da Cemig”. A frase é extremamente significativa por que resume a visão dos gestores, que no mesmo discurso esquizofrênico dizem que “o empregado é o maior patrimônio da empresa” e que é necessário cortar direitos. E que, quando não conseguem, apelam para a terceirização.
A afirmação de Hugo foi recebida pelos 203 inscritos no seminário com estrondosas gargalhadas de deboche. Esta mesma platéia havia aplaudido, poucos minutos antes, o diretor do Sinergia, Marinho Maia, que questionou o representante da Cemig se o salário pago a eletricistas recém contratados pela empresa (R$ 620,00 e ticket alimentação de R$ 215,00 e nada mais a não ser conviver com o saldo de uma morte a cada 45 dias) seria o mesmo a ser pago na novas contratações que prometia fazer.
O seminário reuniu movimentos sociais, trabalhadores e sindicatos de várias categorias, empregados da ativa e aposentados da Cemig, representantes do Sinergia (Marinho e José Marcelo Buchele – que falaram sobre a experiência da Celesc), do Sindicato dos Engenheiros do Paraná (sobre a Copel), do Mab e finalizou com a participação do candidato a vice governador pela aliança PT/PMDB de Minas Gerais, Patrus Ananias (os outros candidatos foram convidados mas não compareceram). O objetivo dos debates foi um modelo de gestão para a Cemig e um projeto político para o setor elétrico.
Tudo igual – Parece que os gestores das distribuidoras de energia saíram do mesmo forno. O discurso e a prática, apesar das diferenças estruturais entre Cemig, Copel, Celesc, é igual. Todas três empresas são estatais. Porém são vistas por seus administradores como um negócio, uma financeira cuja única obrigatoriedade é render dividendos aos acionistas. Em sete anos, por exemplo, a Cemig distribuiu R$ 7,2 bilhões de lucro. E, a parcela do governo mineiro neste bolo, foi gasta sem nenhuma prestação de contas. Nas três distribuidoras, os acionistas se apropriam do patrimônio da empresa, e assim o lucro não se traduz em benefício social.
A terceirização corre solta nas três distribuidoras representando quase 50% da força de trabalho, na Cemig e na Copel. Outros grandes problemas: a falta de investimentos, compras questionáveis, tarifas caras, queda da qualidade do serviço prestado, fechamento de agências e postos de atendimento, perda de capacidade técnica e – resultado de tudo isso – sucateamento da empresas.
Celesc – A audiência do evento recebeu com admiração o trabalho dos empregados da Celesc no modelo de gestão da empresa. A experiência foi relatada na mesa redonda “A gestão de qualidade em empresas estatais”. Os dois diretores do Sinergia (Marinho e Zé Marcelo) relataram de forma cronológica a participação dos trabalhadores, desde 81, nos rumos da gestão da empresa com a premissa de torná-la transparente, ética e profissional, conciliando interesses sociais, ambientais, de investidores, dos trabalhadores, dos clientes, dos fornecedores e da comunidade em geral.
Fizeram um relato dos temas de cada um dos sete congressos realizados e suas conclusões e a importância desta ferramenta no processo. Finalizaram discorrendo sobre o funcionamento do comitê de gestor e das comissões de gestão e resultados. No comparativo com a Celesc, concluíram os trabalhadores da Cemig, o modelo de gestão da distribuidora mineira é antidemocrático e centralizador. Os diretores do Sinergia contaram ainda as últimas vitórias dos trabalhadores (PEC 01/03 e 04 de 2010) e a liminar que dá para a Celesc 90 dias para apresentar um cronograma de primarização de postos de trabalho.
Participativo – Finalmente, no domingo pela manhã o seminário ouviu a proposta do candidato a vice-governador Patrus Ananias, para quem uma empresa pública deve buscar o desenvolvimento integral da questão social e ambiental. Para ele, não há serviço público de qualidade sem servidor público motivado, estimulado, capacitado e devidamente remunerado. Prometeu uma gestão aberta e transparente na Cemig e reduzir ao máximo a terceirização “que é a mais valia pela mais valia”.

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