Por Vivian Celestino - trabalhadora da Eletrosul e dirigente sindical do Sinergia

 

O problema indígena é o problema do brasileiro e deve ser encarado como fundamental para a continuidade de toda espécie viva. O vídeo publicado por Daiara Tukano em 2015 viralizou na internet à época, mas o assunto ainda é motivo de preocupação. No vídeo a indígena relata o massacre ocorrido contra o povo Guarani Kaiowá e comove a população de forma dramática, mencionando mortes e agressões a inocentes, além de suicídios de indígenas. Em seu perfil na internet, a estudante explica a situação e faz um apelo para que o povo colabore da forma como puder, não votando em ruralistas, denunciando abusos, divulgando a cultura indígena através de pesquisas, vídeos e textos ou doando itens de necessidade básica aos povos indígenas mais próximos.

Existem no Brasil 252 povos indígenas falantes de mais de 150 línguas, porém essa diversidade cultural e linguística indígena era muito maior no início da colonização brasileira. Hoje em dia as línguas mais faladas pelos indígenas são o tikuna do Amazonas (34 mil), o guarani kaiowá do Mato Grosso do Sul (26,5 mil) e o kaingang do Sul do País (22 mil). Dentre as terras indígenas do Sul do País e Mato Grosso do Sul, por exemplo, existem os grupos Guarani Mbyá, Guarani Kaiowá, Guarani Nandeva, Terena, Kaingang, Xokleng, Ofayé Xavante, entre outros.

De acordo com o Censo do IBGE (2010), a população indígena é composta por 817.963 indígenas (0,47% da população brasileira). A maioria dos indígenas vive em terras com limites físicos demarcados pelo Governo Federal, de usufruto exclusivo deles. De acordo com o site do Instituto Socioambiental (ISA), existem hoje no país 703 Terras Indígenas, sendo que 118 estão em processo de estudo para demarcação. Essa demarcação, porém, é insuficiente para resolver o problema indígena. As terras situadas próximas ao litoral são as mais valorizadas e, devido a isso, são mais disputadas pelos ruralistas, gerando conflitos e situações onde os poderosos levam vantagem. Um exemplo disso foi o episódio em que indígenas do povo Gamela tiveram as mãos decepadas no Maranhão. O Governo Brasileiro teve de prestar explicações sobre o ocorrido, entre outros assuntos, em recente reunião da ONU.

Em 2015, último ano com dados sistematizados, 137 indígenas foram assassinados no Brasil.

A questão indígena requer cuidados e vontade política, porém o que ocorre é justamente o contrário. Devido à agenda anti-indígena que tomou conta do Governo e do Congresso Nacional, foram cortados recursos financeiros e do quadro de pessoal da FUNAI, ocasionando a asfixia do Órgão. Iniciativas como a PEC 2015 e a CPI da FUNAI, que criminaliza os povos indígenas e organizações da sociedade civil que as apoiam, ganham cada vez mais força e só aumentam os problemas.

Historicamente a FUNAI sempre foi a mais pobre de todas as autarquias brasileiras, seguida do INCRA, que trata dos assentamentos e do georreferenciamento dos imóveis rurais. Ambas estão sucateadas e mal aparelhadas. Acredita-se que se as duas entidades cumprissem efetivamente sua função social, o Brasil poderia resolver finalmente, muitos dos problemas que possui, por exemplo: a demarcação de terras indígenas e o assentamento dos sem terra; a extinção dos latifúndios; a distribuição de terras e o incentivo à agricultura familiar e segurança alimentar; a erradicação da fome e da pobreza; a preservação dos recursos terrestres, minerais e vegetais; e o retorno à soberania nacional acerca desses recursos.

O indígena, por sua natureza, é o maior preservador do meio ambiente. Faz parte de seu dia a dia o cuidado e o respeito pela fauna, flora e recursos minerais, como a água e a terra, assim como ao cultivo de crenças e hábitos e seu repasse aos mais jovens. Existem críticas impensadas sobre o ser indígena e muitos chegam a dizer que os mesmos não devem ter acesso a automóveis, celulares e demais adventos tecnológicos da denominada civilização. Mas se o índio que foi expurgado de suas terras, que foi obrigado a conviver com os ditos cidadãos civilizados, não puder ter acesso à modernidade, quem mais terá esse direito? Será que ao índio restam apenas os males da civilização, como doenças, poluição e degradação da biodiversidade?

O indígena real, mesmo não conseguindo ou não podendo viver como um indígena conceitual (imaginado por muitos) tem os mesmos direitos enquanto cidadão que qualquer outro cidadão não indígena. Afinal de contas, ninguém julga um cristão, um cigano, um muçulmano ou um judeu por utilizar as novas tecnologias, mas muitos se colocam no direito de julgar os indígenas por quererem partilhar das objetivações construídas histórica e culturalmente pelos seres humanos. Ser indígena é partilhar usos e costumes inerentes à cultura indígena e fazer questão de compartilhá-las também com os seus descendentes. É isso que os indígenas querem e é para isso que eles lutam. Estando ou não na mata, na terra demarcada, no trabalho, na universidade ou em qualquer outro espaço, o indígena retorna ao final do dia para a sua individualidade, em sua casa ou sua oca, e realiza seu ritual de reza/oração, o que deve ser respeitado.

Um dos problemas de muitos brasileiros é enxergarem-se europeus demais em relação a sua própria etnia e paradoxalmente absorver impensadamente a cultura norte-americana do desperdício. Em contrapartida, desprezam e ignoram o fato de também possuírem sangue indígena. A cultura indígena está dentro de nós no momento em que, através de nossa própria língua portuguesa abrasileirada, absorvemos e falamos palavras tipicamente tupi-guarani. Lutar pelos indígenas é se colocar no lugar de indígenas, muito mais do que o restrito ato de publicar na internet, no dia 19 de abril, a fotografia de seu filho ou filha com carinhas pintadas de índio.

Acompanhe a mídia indígena Rádio Yandê e as páginas das organizações indígenas nacionais e regionais: Acampamento Terra Livre, APOINME, ARPINSUDESTE, ARPINSUL, APIB, COIAB Comissão Guarani Nhemonguetá, Conselho Aty Guasu, Conselho Terena.