O tema cultura, sempre que debatido - em qualquer tempo e espaço - suscita acaloradas opiniões e concepções que vão de um extremo a outro. Por um, lado há os que consideram a questão cultural somente como lazer, entretenimento. Por outro, estão os defensores de que qualquer atividade artística se basta por si só. Outros ainda associam a cultura a um acúmulo de conhecimentos, que atribui poder e status a quem a possui. E há também os que defendem a ideia de que cultura é a maneira como nos relacionamos com a vida e a recriamos. No meio desse fogo cruzado, estão as atividades culturais nos sindicatos.

 

 

O que é cultura? O que é sindicato?

 

 

Uma cidade é mais que viadutos, prédios, obras e quilômetros de asfalto. A praça será fria e sem vida se não tiver povo. Uma cidade só tem sentido com as pessoas. Assim como uma cidade, um sindicato é mais do que uma estrutura física. É mais do que um monte de gente reivindicando. É um espaço de incentivo e de acesso à produção de bens culturais. Um sindicato é o exercício crítico permanente, através da luta solidária e criativa. Luta esta que nos deve fazer mais humanos e nos animar para a vida, para transformar o áspero cotidiano. Um sindicato é a capacidade de perceber estrelas e de sacudir o chão. 


Dinovaldo Gilioli

 

A cultura expressa nossa relação com a produção e reprodução da vida – e por isso vem do verbo cultivar. Interpreta e define nossa relação econômica, política e social com o mundo. É como nós trabalhamos, comemos, pensamos, vestimos, organizamos, sentimos, escolhemos nossos amores, amamos, divertimos, refletimos, lembramos, falamos, rimos, choramos, transamos, nos vemos, educamos nossas crianças e enterramos nossos mortos. É como entendemos nós mesmos no mundo e como vivemos esse entendimento. Estamos o tempo todo herdando, adaptando, selecionando, construindo e passando valores e interpretações – talvez bem contraditórios - através de nossa vida cotidiana. Se não fazemos nossa própria cultura, podemos ser dominados e apropriados sem perceber. Podemos viver – também trabalhar, amar e sonhar – contra nossos próprios interesses. 


Dan Baron

 

Cultura e Sindicato, o que tem a ver?

 

Ao longo de seus 17 anos de ação cultural, o Sindicato dos Eletricitários de Florianópolis e Região - Sinergia - vem dialogando com o seguinte conceito: cultura não é só literatura, música, cinema, teatro, dança, artes plásticas. É também o conjunto das chamadas “culturas populares”: o artesanato, as festas e o folclore. Mais do que entretenimento, é o modo pelo qual uma sociedade vive e dá sentido a sua própria existência. Área genuína da expressão humana, a cultura pode estimular o exercício crítico e criativo, propiciando espaços que resgatem, preservem e criem novos vínculos de solidariedade onde o ser humano se sobreponha a todas as coisas. Através da ação cultural é possível (re)afi rmar a identidade de um povo e imprimir novos valores à sociedade, em busca da superação do pensamento único vigente.

 

15 anos de ação cultural - Sinergia

 

 

 

15 anos de luta pela cultura, a par da luta em defesa dos direitos dos trabalhadores, este é o grande feito do Sindicato dos Eletricitários de Florianópolis - Sinergia. Neste tempo, tornou realidade a democratização da produção artística, garantindo a fruição e a criação a todos os que têm sensibilidade para tanto, tirando-a do nicho elitista em que procuram aprisioná-la; e assim avançando no esforço de melhor distribuir os bens simbólicos, em nosso País tão concentrados quanto os bens materiais.


Nem sempre os sindicatos tomam consciência da importância da ação cultural, aceitando a limitação de mera ação econômica, que lhe é induzida pelas elites. Não o Sinergia, o jornal Linha Viva, dos eletricitários de Santa Catarina, tem sempre a página 4 dedicada à cultura. O Concurso Literário de Conto e Poesia, aberto a todos os nascidos no Estado ou moradores. O Projeto Meia Hora leva música, dança, teatro para os locais de trabalho; aberto à comunidade, já atingiu 15 mil pessoas.


A presença do Sinergia se faz sentir apoiando grupos e espetáculos de teatro, música, dança, além de exposições de pintura e fotografia. A luta de nosso povo por cidadania e vida digna, em seus vários níveis, não pode prescindir do gozo estético nem do aprofundamento da sensibilidade e da tentativa de entender a condição humana. O Sinergia compreendeu isto.

Eglê Malheiros e Salim Miguel, escritores.